Bem Vindo a Santa Madalena Web Site!!! Perder uma pessoa querida é sempre algo traumatizante. Por isso abrimos este espaço para auxiliar pessoas que estão passando por esse momento...



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Morte em família

Psiquiatras consideram vivência do luto fundamental para superar grandes perdas
A viúva M.O. perdeu o filho primogênito há dois anos. Sua dor foi tão intensa que ela não saiu mais da cama. Não tinha problemas físicos, apenas violenta depressão. Hoje, aos 90 anos os seus músculos se atrofiaram e ela não anda mais. Por se recusar a viver este luto, a atitude dramática de M.O. comprometeu sua vida. Este é um dos piores caminhos para se enfrentar a morte, segundo as psiquiatras americanas Froma Walsh e Monica McGoldrick autoras de "Morte em Família", da Editora ArTmed. Quando morre alguém muito querido numa família, o melhor é que todos se reunam para uma entrega total à tristeza e as dores terríveis da perda. Ainda que esta morte seja prematura, inesperada e trágica, como a do filho do compositor Tom Jobim, João Francisco, em violento acidente no Rio. As autoras recomendam uma profunda vivência do luto como a maneira mais saudável de sobreviver as lágrimas. E, mais tarde, substitui os afetos trocados com o morto por outros, entre pessoas próximas. Quando minha mãe morreu, eu era uma jovem universitária prestes a me casar. Não deixei de cumprir minhas obrigações e fui elogiada por minha força. A nossa cultura tende a negar o impacto da morte e isto fez com que eu minimiza-se minha perda. Estas questões não resolvidas ficam ocultas, interagindo em todos os meus relacionamentos. Hoje, aconselho alunos e pacientes a largarem tudo para ficar com um ente que está morrendo ou, após a morte, com a família para mútuo apoio - Diz Froma Walsh.

Traumas atravessam gerações:
Através de detalhada pesquisa sobre perdas em famílias ilustres como os Kenedy, os Freud, a família da Rainha Vitória e a da escritora Emily Brontê, as psiquiatras demonstram como os traumas influenciam a vida. Segundo Monica McGoldrick, as mortes violentas em quatro gerações dos Kenedy, por exemplo, resultam da cultura familiar de não chorar nem de se unir a cada desgraça. As tragédias começaram antes dos assassinatos dos irmãos John e Robert Kenedy. Mortes não comentadas de parentes como avós e tios, do irmão primogênito Joe, da irmã Kathleen e a lobotomia feita na irmã Rosemery teriam contribuído para as desgraças em gerações sucessíveis com o envolvimento de seis netos com drogas e internações psiquiátricas e a morte trágica de dois filhos de Bob: David, por overdose e Michael, num acidente, em 1997. As pesquisas comprovaram que mortes vividas dessa maneira negativa, sem o luto, nos tornam vulneráveis a doenças, acidentes e distúrbios emocionais - Diz Monica. O diretor da Casa do Engenho do Hospital Psiquiátrico Pedro II, psiquiatra Marco Aurélio Jorge, concorda com as autoras sobre a importância do luto e conta sua experiência: Vivi esta realidade no ano passado, quando meu pai morreu. Tirei uma semana de licença e me mudei com meus irmão para casa de minha mãe. Fazíamos comida, conversávamos e chorávamos. Sentiremos sempre a sua falta, mas aquele aconchego foi reconfortante. Já a Artista plástica P.R. tentou minimizar o sofrimento com a morte da mãe, há dezoito meses. Mas na véspera do Dia das Mães internou-se numa clínica psiquiátrica com crise de ansiedade. Para Marco Aurélio Jorge, ela não conseguiu passar o dia sozinha, o que tende a se repetir todos os anos. Já o Dramaturgo Mauro Rasi, que acredita em reencarnação, escreveu "Pérola" para fazer "Justiça Póstuma" à mãe: - Não acertamos as contas em vida, por isso, escrevi a peça. Mas, para mim, só o corpo morre. É como trocar de carro. Quando agente morre, fica a pé.


Perdas bem elaboradas deixam herança de vida

Terapeutas da PUC-SP criam serviço de psicoterapia breve para ajudar pessoas a enfrentarem mortes na família.

A idéia de que a morte precisa ser sofrida para que o trauma não atravesse gerações resultou na criação do Laboratório de Estudos e Intervenção sobre o Luto (Lelu), da PUC de São Paulo. A coordenadora do Lelu, Maria Helena Bromberg, explica o luto como uma transição psicossocial que, se for bem elaborada, será positiva para a família. A mulher que ficou viúva com a tarefa de administrar casa e filhos vive uma fase dolorosa mas, segundo Maria Helena, cresce ao enfrentar a dor através de uma terapia que dura de três meses a um ano. Os clientes são pessoas que perderam os filhos em acidentes ou crianças que ficaram órfãs.

Perda de um filho, a dor mais difícil

Em Londres, o Centro da Morte Natural, fundado por terapeutas, tenta desfazer o tabu da morte e ajudar as pessoas a encara-la com naturalidade. A Coordenadora do Centro, Josefina Spefine diz que, ao se preparar para a morte aprecia-se melhor a vida. Foi depois de enfrentar o sofrimento de mortes sucessivas de muitos amigos de infância, que o cantor Ney Matogrosso diz ter aprendido aceitar as perdas: - Percebi que era preciso entrega-los à morte. Esta é a única maneira de preserva-los vivos dentro da gente - ensina. Segundo a psiquiatra Monica McGoldrick, toda morte deixa um legado, seja um fortalecimento, seja um trauma. Ela diz que famílias que não conseguem fazer o luto precisam de ajuda para investir em outros relacionamentos e projetos de vida.

Perdas familiares influenciaram vida de Freud.

A profundidade da dor de cada um depende do grau da perda. Mas, entre as pessoas atendidas pelas psiquiatras americanas, a dor considerada mais difícil é a da perda de um filho. Monica McGoldrick observa que depois da morte de uma criança, por exemplo, os pais geralmente a substituem afetivamente pelo filho de idade mais próxima e a sobrecarregam de atenção, carinho e expectativas especiais. Algo parecido aconteceu com um Sigmoud Freud. Sua importância para seu pai, Jacob, teria sido intensificada pela morte do avô paterno, três meses antes do seu nascimento. Já sua mãe Amália, apegou-se demais a Sigmound quando o segundo filho, Julius de sete meses morreu. A percepção de Freud de seu lugar especial no mundo teria sofrido influência desta sucessão de perdas. Outro período crítoco seria o da morte de seu pai, logo após o nascimento de Anna, a filha com quem Freud mais se apegou. Neste período, ele também estabeleceu intensa ligação afetiva com a cunhada Minna. Por toda a vida, a duas ficaram extremamente ligadas a Freud. Talvez isso explique porque não se casaram.

Como ensinar os filhos a lidar com a morte

- Falar da morte: Não se deve dizer que a pessoa morta foi fazer uma longa viagem: a criança pode pensar que o morto abandonou sem dizer adeus. Os pais e parentes não devem esconder sua dor nem suas lágrimas. A sinceridade dos pais ensina que é natural e sentir pesar.

- A recuperação: A Psicanalista e professora da universidade de Santa Úrsula Ruth Goldenberg diz que a reação da criança depende da qualidade dos cuidados maternos recebidos. Se foram bons e o ambiente continuar favorável, ela viverá um abalo psíquico, mas gradualmente vai recuperar sua capacidade de se relacionar com pessoas substitutas.

- Reação Patológica: Se a criança não contou com uma relação básica satisfatória, ela será frágil, insegura e angustiada. Ficará muito apegada à mãe e, se houver uma perda real desta mãe, cria-se um vazio psíquico que, segundo a psicanalista, nenhum mecanismo de defesa conseguirá preencher.

- Liberdade de expressão:
Ruth Goldenberg, recomenda que, em qualquer caso, a criança tenha um espaço para expressar seus afetos e fantasias, elaborando a culpa e a raiva e vivendo o luto e a tristeza da perda. Só assim ela vai adquirir a capacidade de se relacionar com os outros.

- Cerimônias Fúnebres:
A criança não deve ser obrigada a ir a um funeral. Se ela quiser ir deve receber uma descrição do que vai acontecer, inclusive que haverá um caixão e muita gente chorando. Deve ainda receber a garantia de que poderá ir embora, se quiser.